Era uma tarde ensolarada em meio inverno de Agosto, o céu estava limpo e o infinito azul, só era quebrado por duas talvez três pequenas nuvens. Quais cortavam o céu em alta velocidade, levadas pelo vento sul que forte soprava.

Com a roupa de borracha que deixara expostos: os pés, braços, mãos e a cabeça. O sol forte só não ardia pois o gélido vento cortava o corpo com toda sua intensidade. Intensidade que tornou a decisão de montar o equipamento e aventurar-se de windsurf nas aguas congelante da Lagoa da Conceição.

Sai com equipamento de onda, não vou entrar em detalhes, mas é uma prancha pequena e com pouca flutuação, assim como a vela que pequena permite planar quando o vento está forte.

Não muito longe do banco de areia, mas já muito longe da margem, o destino me traiu. O vento que soprara forte passou a ser uma leve brisa. Voltar não era uma opção, o esforço para manter-se em pé no meio da lagoa sem vento era tremendo. Tanto que em quanto me cansava, também me aquecia e o tempo passava vagarosamente, tornando a agonia e insegurança cada vez maior, cada movimento era meticulosamente calculado, a dor da agua cortando os pés o frio do ár que enchia os pulmões gélido e saiam em forma de fumaça, fazia daquele momento cada vez mais tenebroso.

Foi quando de longe avistei outro velejador que vagarosamente velejava em sentido oposto, estávamos ambos no meio da lagoa, mas em quanto meus pés doíam como se facas estacassem cada nervo que a gelida água tocava, o outro estava confortável em sua prancha grande (slalon) que o mantinha sem contato com a água.

De longe o outro velejador berrou “Quer ajuda?!”, no primeiro esforço para responde-lo percebi o quanto perigosa era minha situação, pois a voz que deveria ser um “Sim!” não passou de um ronco sussurro, mas na segunda tentativa a voz tremula ainda baixa saiu e o outro não respondeu, não fez sinal, apenas se afastou vagarosamente pelo horizonte. Não tinha certeza se ele ouvira meu sim, se percebera meu problema, mas agora tinha uma nova preocupação.

O que era uma leve brisa de inverno foi parando a medida que o sol se punha e a luz ia dando espaço para escuridão que só era quebrada por uma lua quase cheia. As rajadas agora faziam brisa, havia uma pequena correnteza que me empurrava em direção as pedras, mas a falta de vendo era tanta que não aguentei mais a vela, num ultimo esforço larguei a vela que desceu pesada sobre a água e deitei na prancha, deixando agora meu tornozelos dentro da água que cada vez mais gelada ficava, meu peito seco e meus braços usava para remar.

Eu devia estar a uns quinhentos metros da margem mais próxima, a cada braçada parecia que a prancha pouco andava, a vela estava atrapalhando já afundada na água, mas eu não tinha forças para brigar com ela, meus pés estavam dormentes e sentia estigmas fortes na perna durante terríveis cãibras que me amaldiçoavam durante o trajeto, não só nas pernas, os braços já não remavam mas eram arremessados a água e só pelo ombro puxados, pois não tinha mais controle dos músculos que doíam e teimavam responder aos comandos de remar. Persisti, cair na água não era uma opção.

Agora metade do meu corpo estava submersa em águas gélidas e escuras, mantive a vela acoplada a prancha mesmo que pesando, era minha melhor vela, não aceitaria perde-la e já não tinha controle dos dedos para soltar e enrolar a vela sob a prancha. A braçadas, desajeitadas e dolorosas, fui guiando minha trajetoria para margem, a corrente me levava em direção as pedras, mesmo exausto e com cãibras, eu continuei direcionando a prancha ao que uma área que em meio ao breu aparecia ser sem pedras.

Por sorte, era uma noite de lua quase cheia, que me permitia ver não muito longe meu destino, cada braçada em água gélida tinha sensação de que varias navalhas cortavam meus braços, os dedos eu já não os sentia, foi quando cheguei a margem que percebi, era uma rampa de barco.

Estava no terreno de um desconhecido a noite em um local que só possível chegar de barco. Não tive dúvidas, fui directo batendo palmas e rouco clamando por socorro, até chegar a uma pequena casa de caseiro. Do outro lado do terreno via-se o casarão, com luzes acesas a porta aberta e sem ninguém dentro a casa do caseiro me pareceu aconchegante. Via ao lado da porta uma geladeira com um pequeno rádio antigo em cima, uma mesinha e a porta que dava pra um lavabo pequeno e simples, com muita coragem adentrei a casa e fui direto ao lavabo, ligando o pequeno chuveiro eléctrico que chiou e saiu uma água quente e esfumaceada, deixei a água correr pelo meu corpo alfinetando quente cada um dos terminais nervosos a flor-da-pele, aliviando os braços, mãos, pernas, pés e alma.

Um pouco assustado. com medo de que o caseiro chegasse e sentisse ameaçado com minha presença, fechei o chuveiro e fui para beira do terreno. Puxei meu equipamento para o seco de forma segura e firme. No muro de contenção da grama, sentei e aguardei.
Aguardei…
Aguardei…
Mais de uma, duas horas, não tenho certeza, não tinha um relógio, mas tempo suficiente para meu corpo esfriar e o gélido ár da lagoa dominar mais uma vez o meu corpo e me fazer tremer, tremer de frio novamente. Aguardei…

Noite a dentro de inverno, após horas de escuridão, um pequeno bote com duas pessoas passa ao longe, apenas escuto o barulho. Novamente o bote passa para o outro lado agora com som mais alto. Alguns minutos depois já eufórico, vejo o bote vindo em minha direção.
- Hey você! é o velejador perdido? – perguntou o piloto.
- Sim! – Eu falo, eufórico pelo resgate ter chego.
Em segundos pulo para dentro do bote, puxo meu equipamento para dentro, deixando só parte da vela pra fora, que o outro integrante do bote segura e fala:
- Cara, teu pai ta lá na praia preocupado contigo.

O caminho segue tranquilo, o vento gelado agora era só uma questão de tempo para chegar em casa, tomar um banho quente e me confortar e pensar no que havia acontecido. Que dia, que noite. Aliviado sobrevivi as águas da Lagoa Gelada.