Era uma tarde comum de quarta-feira, fazia sol, poucas nuvens se viam no céu, também não era um dia de vento.

Eu acabara de tomar banho e coloquei um calção surrado, uma camisa com emblema de kung-fu também surrada.

Na minha mochila havia um lapis, borracha, caneta e um caderno, no outro compartimento um saco plastico vazio e uma camisa enrolada.

Esta mochila tem um encaixe que serve especificamente para acoplar um par de roller-inline, adaptação que fiz anos antes com meu pai.

De tenis nos pés eu desci as escadas do prédio onde eu vivia, um lance de três andares, subi a rua até o ponto mais alto e lá coloquei os tenis no saco plástico e os rollers em meus pés.

E fui ladeira acima de roller, por sorte uma caminhonete passava devagar.
Pra quem anda de roller nas ruas as caminhonetes e outros veiculos com itens acoplatos ao porta malas são perfeitos para se agarrar e pegar uma “carona”.

Sem que o mototorista percebesse, em seu ponto cego do espelho lá eu estava, agarrado na traseira indo de carona ladeira a cima, nesse momento eu já pensava na prova que eu tinha que fazer.

Eu pensava que seria só mais uma simples prova de matemática, meu forte, eu estava definitivamente tranquilo.

foi quando mais a frente havia uma longa fila de carros antes de um cruzamento fechado e a caminhonete desacelerou até parar.

Para não perder o emblo eu me soltei da caminhonete antes dela parar e embalado passei entre os carros até o topo.

La havia uma praça, muito conhecida por “Praça dos Bombeiros” por que é onde fica o principal quartel dos bombeiros de Florianópolis, mas meu destino aquela tarde era outro.

Eu tinha de ir para Av. Hercilio Luz, para o tal existem três ladeiras: uma ingrime que termina em uma curta reta com uma cinaleira ao fim, Outra ainda mais ingrime e contra mão, por fim uma antiga descida de paralelepipedos que desemboca diretamente na avenida.

Contra mão ou por paralelepipedos não eram opções a se descer naquela tarde. Então no topo da primeira ladeira eu ja estava decidido a descer, mas havia de ser no tempo certo.

A descida era ingrime e longa, o suficiente para que não se pudesse freiar mas a reta ao fim era suficiente para desacelerar o roller permitindo uma parada suave, e tão logo chegaria no meu destino.

Observei o fluxo de carros por talvez um ou dois minutos, reparei os pontos de escape ou calçadas, caso algo desse errado e no momento perfeito eu fui, inclusive me projetando a frente para ganhar mais velocidade.

Eu já estava muito rápido quando vi um carro saindo de ré de uma das garagens a esquerda. Devia ter cerca de 100 metros a frente estava no fim da ladeira. Freiar neste momento seria o mesmo que mergulhar a uns quarenta quilometros por hora no asfalto.
O tempo parou, cada segundo agora era um minuto, eu via o sujeito na direção e ele me via, fiquei aliviado e vi a luz do freio se apagar, pensei: FODEU!

O cara deu a ré com tudo e eu já não via mais zona de escape naquele momento, a solução que eu consegui pensar na hora era de pular a caixa de de grama e cair na calsada e continuar ladeira a baixo, torcendo para que o chão irregular da calçada não travasse o roller.

Não deu certo, no salto eu bati no carro, girei no ár, por cima da grama e cai rolando na calçada de concreto.

O motorista, sabe-se lá porque, acelerou fazendo a curva pra direita e quase me atropelando uma segunda vez.

Me hergui e verifiquei se havia quebrado algo, mas nada notei. A adrenalina era tanta que mesmo todo ralado e sangrando eu não sentia dor alguma.
Tentei alcançar o carro que quase me matou, mas foi envão, o sinal ficara verde e ele sumiu Gama’deça acima.

Me recompus e voltei a caminho do meu destino, uma prova de matemática para validar o trimestre.

Quando tirei o roller para por o tennis vi que meu pé estava muito inchado, mas isso não me incomodava.

Passara quase meia hora de prova, adrenalina e os batimentos baixaram a intensidade. Logo veio a dor e éra invernal!

As palmas das mãos estavam em carne viva, a lateral direita praticamente toda esfolada e por fim o cotovelo aberto.

Pedi licença e fui para o hospital mais proximo, no caso o hospital do cancer.
Prontamente não me atenderam, fiquei aguardando até que a enfermeira chefe viesse falar comito. Era uma loirinha linda, ela me viu e perguntou “o que houve”, eu prontamente respondi que “fui atropelado em quanto andava de roller”, vendo meu estado, chamou o elevador e me guiou até uma pequena sala no andar de cima. Encharcou um algodão com alcool e começou a passar ele e gasi para limpar a areia dos machucados.

A dor agora era descomunal, cada vez que ela fazia aquilo paraciam facas cortando a carne já surrada pelo asfalto, me embriagava o cheiro de alcool e os olhos firmes daquela linda mulher, mas a dor…

Ela fez curativos perfeitos. Nunca mais a vi… A e a prova, eu passei!