Assassino Virtual

Estou dirigindo para casa e tenho apenas uma certeza, eu a amo. Passamos um final de semana maravilhoso, eu e ela.
No momento a noite é minha única companheira, assim como ela foi neste final de semana, foi muito bom. Quase como estar sozinho e não se preocupar com nada, ela gosta tanto de mim que parece fazer parte do meu corpo a todo o momento, como se me completasse.
Eu nunca precisei dela e ela nunca precisou de mim. Não temos quase nada em comum, mas nos completamos juntos. Sem motivos, sem necessidades. Apenas faz bem estarmos juntos.
É uma certa loucura estarmos juntos, ela é, pelo menos, seis anos mais nova que eu, sinto em certos momentos sua insegurança, se sente insegura por me amar tanto, mas mal sabe ela que eu a amo da mesma maneira.
Talvez seja melhor assim, nem tudo deve se dizer, apenas demonstrar. As palavras assim como são fortes para as pessoas que as ouvem, enfraquecem aquelas que as pronunciam. E além do mais, os olhos refletem a verdade daqueles que podem sentir.
Hoje a estrada está vazia, já estou a pelo menos cento e sessenta quilômetros por hora. Normal em uma estrada como esta, mas há pessoas que defendem que o limite que as placas impõem deve ser obedecido.
Bom senso. É necessário apenas bom senso para definir o certo do errado. Sim. Sem por os outros em risco, respeito é muito importante. Mas no meu caso, gosto de viver a vida.
Amanhã é segunda-feira, volto para empresa e fico boa parte do dia fazendo algo que eu tenho facilidade, não que eu goste ou deixe de gostar, mas não é algo que me dificulta, pelo contrario, permite que eu alcance minhas ambições.
Intensidade. Quando não estou trabalhando, estou levando a minha vida da forma mais intensa possível. Estou apaixonado, estou muito apaixonado. Se estivesse com ódio, estaria com muito ódio, se estivesse ansioso, estaria muito ansioso.
Eu acho isso perfeito, há quem diga que a vida deve ser dosada. É porque já não conseguem sentir a vida, tem tanto medo da morte que fazem de nada para serem vivos e não morrerem, mas já esqueceram que de nada vale a vida daqueles que não podem vivê-las.
Serei um eterno exagerado, que exista um dia aqueles que compreendam a vida ao extremo.
Estou cansado, muito cansado, chegarei logo em casa, espero que ela aproveite sua semana, artistas precisam de inspiração. Usei toda minha energia a cada dia que passou e cada manhã que acordei, acordei com toda energia e um pouco mais.
Um dia, não havia nada para fazer e nesse dia tentei não pensar, quis me sentir como alguém que guarda suas energias para o dia seguinte. No dia seguinte acordei tão cansado que quis guardar minhas energias para outro dia. E por um momento refleti, do que vale me guardar para amanhã, olhar pra trás e ver um monte de dias me guardando para o dia que vou deixar de viver.
Melhor viver em quanto estou vivo. Sim, estou muito apaixonado. Preciso chegar, quero viver a minha vida de amanhã.

Sentir a vida

Que tarde maravilhosa. Já passa das seis, estamos eu e ele na sua cama, casa de praia. Pela janela vejo uma suave chuva, um frio gostoso invade nosso quarto, sinto em meu rosto, mas meu pescoço esta quente e posso sentir sua calma respiração. Como é bom.
Seus braços me cobrem pouco abaixo dos meus. E como em um abraço tocam minha barriga, parece querer tocar meus peitos, mas seu peso não deixa. Sim ele dorme, esta totalmente relaxado neste momento.
Nenhuma preocupação. Eu sentia seu peito, seu coração batia de forma tão suave, parecia querer encontrar o ritmo do meu.
Suas pernas passavam pelas minhas coxas e se perdiam em seu joelho. Nossos pés se encontram suavemente, parece brincar com suas diferenças, sua pele grossa me faz sentir ele, parece que quer me lembrar que isto não é um sonho e que eu realmente o amo.
Me lembro do dia em que o vi pela primeira vez, neste momento senti que o veria novamente. Eu apenas queria, não o conhecia ainda, mas vi nele algo, não sei por esse sentimento em palavras, era algo que fazia o resto se tornar metade de tudo e eu na época acreditava não precisar de mais nada.
Como estou feliz. Feliz por ter errado ao pensar que a vida é apenas de objetivos. Fico tão feliz quando vejo a minha vida como campos abertos com suas irregularidades, mas bonitos até onde os olhos podem alcançar.
A liberdade de poder caminhar para qualquer lado, sem saber onde posso chegar e sem querer imaginar o que verei, mas com a certeza que lá ou além, eu serei feliz. Muito mais feliz do que quando eu procurava um caminho certo, um objetivo para minha vida.
Talvez por isso nossos caminhos se tornassem paralelos em um momento que apenas iriam se cruzar. Sim, eu quero estar com ele, apenas ele até o fim da minha vida.
A luz parece querer acabar, mas a luz da lua já toca nosso quarto e o suave cheiro da terra molhada me faz lembrar do passado, me deixa feliz pelo presente, enche de esperanças meu futuro.
Perdemos uma tarde toda, perdemos para o resto do mundo, mas ninguém sabe o que ganhamos apenas para nós dois. É algo que as pessoas esquecem, todos tão preocupados com sigo. Esquecem que as coisas mais simples e sem razão, que apenas sentimento nos realiza e nos faz felizes.
Por um momento esqueci da vida. E por toda minha vida serei grata por momentos como este. Na realidade todo resto seria bom e confortável, apenas porque o sinto aqui hoje.
Sinto que ele esta acordado. Não falou nada, mas posso sentir em sua respiração, sinto alegria nele. Talvez não queira me acordar, não sabe se estou acordada, mas sabe que se mexer seu corpo isso me acordaria. No que será que ele pensa agora?
Pensa em tudo e na simplicidade do nada, mas por um momento esta pensando em mim e isso o deixa feliz. Sei disso sem que ele fale, gosto de estar com ele e apenas sentir deixar todo resto para depois. Vivo para ser uma pessoa feliz, assim sou útil a todos. Querer ser feliz não é ser egoísta, é fazer os outros felizes por eu ser.
Essa boba felicidade que ele sente por estar comigo é a mesma tola felicidade que sinto por estar com ele. Não há razão em sentir, não há noção em um sentimento. Apenas barreiras, barreiras que criamos por medo.
Medo de que essa pessoa que amamos não tenha este mesmo sentimento pela gente. Quando o sentimento é verdadeiro o momento se torna algo difícil de lidar, o medo deve ser substituído por confiança e nem sempre isso é rápido, mas é difícil e às vezes se torna doloroso por ser demorado.
Mas vale a pena, correr o risco, errar, se deixar levar por falsos sentimentos de pessoas que tem objetivos mais fortes que os sentimentos, infelizmente estes nunca encontrarão uma felicidade verdadeira, há menos que alcancem seus objetivos e possam olhar pra trás e ver o tempo que perderam. E se ainda lhes restar tempo, encontrar a verdadeira felicidade que só os sentimentos proporcionam.
Sim, estou apaixonada e por alguém que me ama. Estou feliz. Tenho sentimentos. Não há nada melhor que isso!
“Eu te amo.” Ele sussurrou baixinho no meu ouvido, meu coração esta disparado.
Este abraço é delicioso, beijando. Apenas posso sentir.

Solidão

“Olá?… Olá?… Há alguém ai?…”.
Afinal onde eu estou?
Esta tudo longe, esta escuro. Talvez esteja nevando e está muito frio, meu corpo esta quente… Quente demais, esta me sufocando!
Quero gritar, mas não há ninguém. Ninguém vai me ouvir, vejo pessoas e todas de costas. Quero ver seus rostos, mas ninguém se vira…
“Olá?… Quem é você?… Estou vivo?…”.
Não pode ser… Sim! É um sonho, estou em um sonho, mas porque não o controlo? Eu decido minha vida! Não quero mais ver estas pessoas. Estão me incomodando. Porque não posso ver seus rostos, porque ninguém responde?
“Saiam todos! Odeio vocês! Desapareçam do meu sonho!”.

Me sinto bem. Eu mando aqui, faço o que quero e todos fazem o que eu quero. Sim, assim que tem que ser.
Me sinto sozinho.

Talvez eu tenha medo, qual é o futuro, quem são meus amigos? Se eu controlasse o destino, seria esse o fim de todos ou esse o meu fim?
Quero correr para bem longe…
Mas já estou longe demais.
O que é aquilo? Quem é ele? Sou eu? Sim, eu posso me ver… Espere mas é tão diferente…
Por um segundo não pude ver. Fechei os olhos para não acreditar. E agora? Vejo uma luz, esta claro, muito claro. São trovões, raios que cortam o céu, a noite não é noite, mas não é dia. Não há chão, onde estou?
Luz, luz, luz! Não consigo respirar! Socorro. Alguém me ajude por favor. Não quero morrer.

Finalmente, posso ver. Era um sonho, apenas um sonho, nada mais que um simples sonho. E eu tive medo, medo em um sonho. Que absurdo.
Bom… Já é uma da tarde, melhor eu ir trabalhar. Acho que a empregada faltou, este apartamento esta uma zona. Onde será que estive ontem, não me lembro deste cheiro, minha cabeça dói. Acho que uma ducha resolve.
Ah, este carro é uma beleza, quem disse que preciso de algo mais. Esse som é forte. Sim, forte como eu.
Nunca havia reparado o quanto é longe, parece que a rua não acaba. Bom, assim da pra curtir um pouco esse carro. Que maravilha!
Será que hoje é domingo? Não vejo ninguém na rua. Engraçado não ter um calendário por perto quando a gente precisa. Já sei! O celular. Engraçado, a data não esta configurada, deve ter caído ontem. Esta fora de área, logo agora, isto está me frustrando. Vou acabar trocando de operadora assim.
Deixa isso pra lá. Pouco me importo, devo estar chegando. Engraçado, parece o meu prédio no final da rua dessa esquina. Que confusão.
Espera. Não era… Mas não há esquina aqui, afinal… Que frio, o ar quente do carro deve ter quebrado. Esta no máximo e estou com frio. Como escureceu rápido. O relógio de casa deve estar com problemas, só pode.
Sim, sim, ótima hora para acabar a gasolina. E eu nem sei onde estou… Caminhando eu devo chegar em casa, aquele prédio parecia mesmo o meu, mas não vejo a maldita esquina.
Cadê todo mundo? Onde eu estou? Estou correndo, mas não sinto sair do lugar, cadê a esquina?
“Olá?… Olá?… Há alguém ai?”.

Em Memória

Estou caindo. Mais uma vez me encontro em um longo caminho. Caminho único para apenas uma direção. Incrível como às vezes entro nesses caminhos, vejo o que me espera e mesmo assim não tenho a menor idéia do que vai vir depois. Uma grande mudança, ah… Isso eu afirmo.
Continuo caindo. E não há mais volta. Não há em que passado pensar, não me arrependo de nada. A única coisa que me corroe é esta memória.
O passado, futuro e presente como um todo. Nada mudou, é tudo tão igual, os mesmos erros se repetindo, incrível eu estar feliz. Eu cometo erros, vivo em uma sociedade, cometo erros porque sou induzido a eles e a culpe é toda minha. Tenho sentimentos.
Estranho… O tempo estar passando tão devagar. Está frio, estou do lado de fora, ainda estou caindo, tenho dúvidas sobre isso, mas não quero abrir os olhos, não agora. Ta muito frio.
Engraçado, nunca me esqueci daquele dia normal em minha infância, olha, isso faz muito tempo. Não tem nada, nada de especial naquele dia, na realidade só representa diversos outros dias iguais aquele nos quais me lembro de todos. Lembro-me.
Lembro da festa com os amigos, é especial, pois é com amigos, mas é só mais uma festa dentre todas de final de semana. Lembro das aulas. Costumava ter aulas… Sim, quando eu ia a elas. Mas na minha memória a sala de quarenta, às vezes sessenta alunos. Só vejo oito ou dez. É incrível como me lembro de forma diferente das coisas às vezes.
Tenho amigos e amigas, me pergunte quem são e eu vou te explicar exatamente, mas é como eu penso, pois tente me perguntar seu cabelo, olhos, físico, às vezes não me lembro nem do nome. Mas o jeito e a situação isso eu não esqueço.
Esse é meu último “log”, sei que alguém vai achar este registro, se não eu não perderia meu tempo fazendo e escondendo ele. E você só esta recebendo por e-mail, pois eu sou importante, até para você que não sabe quem sou eu, mas para pessoa que enviou, eu sou importante, a ponto de fazer algo que eu deixei como destino e não pedi a ninguém.
O que eu fiz? Por que sou importante? Eu apenas pensei.

Se você está lendo este e-mail é porque não estou mais vivo. Não criei coragem, apenas curiosidade. Agora eu sei algo o qual você teme, sei a resposta para uma pergunta que com certeza lhe faz pensar todos os dias.
Viva antes de querer achar a resposta pela qual só a morte pode esclarecer. Seja bom assim como eu já fui, pense nos outros, as pessoas querem existir, mas não pense por elas, é perda de tempo. Deixe apenas explicito como você pensa, mas lembre-se isso o fará ser julgado, mas no final o resultado não importa não me julgaram pelo que sou ou faço a maioria ainda não descobriu apenas pelo que pensaram de mim no dia que me viram.
Não voltarei, mas alguém vai continuar para você o que eu não comecei. Adeus.

Pensar e Existir

Olá! Meu nome… Meu nome não importa. Eu não existo, não de verdade. Apenas para você eu existo,  como você pensa assim serei.
Você já pensou que se você não pudesse pensar, não só eu, mas nada nem ninguém existiria?
Lembra-se da sua infância? Sim, quando você não sabia ler, não sabia o significado do conjunto de símbolos que formam palavras, frases, textos. Você identificava, lembrava, mas tudo não passava de objetos, não havia o que entender, sem haver como entender. As palavras só existem agora, porque alguém lhe mostrou como pensar nelas e como entendê-las.
Da mesma forma eu existo. Você pensa em mim, você me interpreta e eu sou exatamente o que você vê. Não posso mudar, a menos que você pense diferente e assim serei.
Você só me conhece porque você me viu uma única vez. Não falou comigo, não me ouviu, não me tocou, não me cheirou. Apenas viu e por isso eu existo.
Consegue diferenciar o que é real do que não é? Você está acordado? Eu não sou um sonho. Sou você, ou aquele que você decidiu que eu seja.
Se não quiser conviver comigo, eu deixarei de existir, eu e qualquer um que você vê. Ninguém precisa ser cego, para não ver. É simples. Não acredite. Você tem medo?
Eu tenho. Não de que você possa querer que eu não exista. Tenho medo de que eu possa querer que você não exista.
Já perdeu o controle? Aquele momento em que você vê tudo, o passado e o futuro e pensa, “não vou cometer erros”, é um pensamento, mas junto você está pensando que isto é mentira, ao mesmo tempo que você já está cometendo o erro.
Não temos apenas um pensamento por vez. Nos limitamos quando dizemos só poder pensar em uma coisa de cada vez, existem muitos pensamentos juntos de uma vez só, mas nos acostumamos a interpretar apenas um por vez. Isso explica porque quando lê um texto, lembra de algo e quando se dá conta que estava em um pensamento, vê que passaram várias linhas e você não sabe o que leu.
Logo, vou lhe contar uma história. Mas essa história foi feita por você. O personagem só vai existir se você acreditar nele. E eu serei o personagem. Eu, seu pensamento. Um sonho real e lúcido. Defina a sua realidade. Eu quero existir.

A Ladeira

Era uma tarde comum de quarta-feira, fazia sol, poucas nuvens se viam no céu, também não era um dia de vento.

Eu acabara de tomar banho e coloquei um calção surrado, uma camisa com emblema de kung-fu também surrada.

Na minha mochila havia um lapis, borracha, caneta e um caderno, no outro compartimento um saco plastico vazio e uma camisa enrolada.

Esta mochila tem um encaixe que serve especificamente para acoplar um par de roller-inline, adaptação que fiz anos antes com meu pai.

De tenis nos pés eu desci as escadas do prédio onde eu vivia, um lance de três andares, subi a rua até o ponto mais alto e lá coloquei os tenis no saco plástico e os rollers em meus pés.

E fui ladeira acima de roller, por sorte uma caminhonete passava devagar.
Pra quem anda de roller nas ruas as caminhonetes e outros veiculos com itens acoplatos ao porta malas são perfeitos para se agarrar e pegar uma “carona”.

Sem que o mototorista percebesse, em seu ponto cego do espelho lá eu estava, agarrado na traseira indo de carona ladeira a cima, nesse momento eu já pensava na prova que eu tinha que fazer.

Eu pensava que seria só mais uma simples prova de matemática, meu forte, eu estava definitivamente tranquilo.

foi quando mais a frente havia uma longa fila de carros antes de um cruzamento fechado e a caminhonete desacelerou até parar.

Para não perder o emblo eu me soltei da caminhonete antes dela parar e embalado passei entre os carros até o topo.

La havia uma praça, muito conhecida por “Praça dos Bombeiros” por que é onde fica o principal quartel dos bombeiros de Florianópolis, mas meu destino aquela tarde era outro.

Eu tinha de ir para Av. Hercilio Luz, para o tal existem três ladeiras: uma ingrime que termina em uma curta reta com uma cinaleira ao fim, Outra ainda mais ingrime e contra mão, por fim uma antiga descida de paralelepipedos que desemboca diretamente na avenida.

Contra mão ou por paralelepipedos não eram opções a se descer naquela tarde. Então no topo da primeira ladeira eu ja estava decidido a descer, mas havia de ser no tempo certo.

A descida era ingrime e longa, o suficiente para que não se pudesse freiar mas a reta ao fim era suficiente para desacelerar o roller permitindo uma parada suave, e tão logo chegaria no meu destino.

Observei o fluxo de carros por talvez um ou dois minutos, reparei os pontos de escape ou calçadas, caso algo desse errado e no momento perfeito eu fui, inclusive me projetando a frente para ganhar mais velocidade.

Eu já estava muito rápido quando vi um carro saindo de ré de uma das garagens a esquerda. Devia ter cerca de 100 metros a frente estava no fim da ladeira. Freiar neste momento seria o mesmo que mergulhar a uns quarenta quilometros por hora no asfalto.
O tempo parou, cada segundo agora era um minuto, eu via o sujeito na direção e ele me via, fiquei aliviado e vi a luz do freio se apagar, pensei: FODEU!

O cara deu a ré com tudo e eu já não via mais zona de escape naquele momento, a solução que eu consegui pensar na hora era de pular a caixa de de grama e cair na calsada e continuar ladeira a baixo, torcendo para que o chão irregular da calçada não travasse o roller.

Não deu certo, no salto eu bati no carro, girei no ár, por cima da grama e cai rolando na calçada de concreto.

O motorista, sabe-se lá porque, acelerou fazendo a curva pra direita e quase me atropelando uma segunda vez.

Me hergui e verifiquei se havia quebrado algo, mas nada notei. A adrenalina era tanta que mesmo todo ralado e sangrando eu não sentia dor alguma.
Tentei alcançar o carro que quase me matou, mas foi envão, o sinal ficara verde e ele sumiu Gama’deça acima.

Me recompus e voltei a caminho do meu destino, uma prova de matemática para validar o trimestre.

Quando tirei o roller para por o tennis vi que meu pé estava muito inchado, mas isso não me incomodava.

Passara quase meia hora de prova, adrenalina e os batimentos baixaram a intensidade. Logo veio a dor e éra invernal!

As palmas das mãos estavam em carne viva, a lateral direita praticamente toda esfolada e por fim o cotovelo aberto.

Pedi licença e fui para o hospital mais proximo, no caso o hospital do cancer.
Prontamente não me atenderam, fiquei aguardando até que a enfermeira chefe viesse falar comito. Era uma loirinha linda, ela me viu e perguntou “o que houve”, eu prontamente respondi que “fui atropelado em quanto andava de roller”, vendo meu estado, chamou o elevador e me guiou até uma pequena sala no andar de cima. Encharcou um algodão com alcool e começou a passar ele e gasi para limpar a areia dos machucados.

A dor agora era descomunal, cada vez que ela fazia aquilo paraciam facas cortando a carne já surrada pelo asfalto, me embriagava o cheiro de alcool e os olhos firmes daquela linda mulher, mas a dor…

Ela fez curativos perfeitos. Nunca mais a vi… A e a prova, eu passei!

A Lagoa Gelada

Era uma tarde ensolarada em meio inverno de Agosto, o céu estava limpo e o infinito azul, só era quebrado por duas talvez três pequenas nuvens. Quais cortavam o céu em alta velocidade, levadas pelo vento sul que forte soprava.

Com a roupa de borracha que deixara expostos: os pés, braços, mãos e a cabeça. O sol forte só não ardia pois o gélido vento cortava o corpo com toda sua intensidade. Intensidade que tornou a decisão de montar o equipamento e aventurar-se de windsurf nas aguas congelante da Lagoa da Conceição.

Sai com equipamento de onda, não vou entrar em detalhes, mas é uma prancha pequena e com pouca flutuação, assim como a vela que pequena permite planar quando o vento está forte.

Não muito longe do banco de areia, mas já muito longe da margem, o destino me traiu. O vento que soprara forte passou a ser uma leve brisa. Voltar não era uma opção, o esforço para manter-se em pé no meio da lagoa sem vento era tremendo. Tanto que em quanto me cansava, também me aquecia e o tempo passava vagarosamente, tornando a agonia e insegurança cada vez maior, cada movimento era meticulosamente calculado, a dor da agua cortando os pés o frio do ár que enchia os pulmões gélido e saiam em forma de fumaça, fazia daquele momento cada vez mais tenebroso.

Foi quando de longe avistei outro velejador que vagarosamente velejava em sentido oposto, estávamos ambos no meio da lagoa, mas em quanto meus pés doíam como se facas estacassem cada nervo que a gelida água tocava, o outro estava confortável em sua prancha grande (slalon) que o mantinha sem contato com a água.

De longe o outro velejador berrou “Quer ajuda?!”, no primeiro esforço para responde-lo percebi o quanto perigosa era minha situação, pois a voz que deveria ser um “Sim!” não passou de um ronco sussurro, mas na segunda tentativa a voz tremula ainda baixa saiu e o outro não respondeu, não fez sinal, apenas se afastou vagarosamente pelo horizonte. Não tinha certeza se ele ouvira meu sim, se percebera meu problema, mas agora tinha uma nova preocupação.

O que era uma leve brisa de inverno foi parando a medida que o sol se punha e a luz ia dando espaço para escuridão que só era quebrada por uma lua quase cheia. As rajadas agora faziam brisa, havia uma pequena correnteza que me empurrava em direção as pedras, mas a falta de vendo era tanta que não aguentei mais a vela, num ultimo esforço larguei a vela que desceu pesada sobre a água e deitei na prancha, deixando agora meu tornozelos dentro da água que cada vez mais gelada ficava, meu peito seco e meus braços usava para remar.

Eu devia estar a uns quinhentos metros da margem mais próxima, a cada braçada parecia que a prancha pouco andava, a vela estava atrapalhando já afundada na água, mas eu não tinha forças para brigar com ela, meus pés estavam dormentes e sentia estigmas fortes na perna durante terríveis cãibras que me amaldiçoavam durante o trajeto, não só nas pernas, os braços já não remavam mas eram arremessados a água e só pelo ombro puxados, pois não tinha mais controle dos músculos que doíam e teimavam responder aos comandos de remar. Persisti, cair na água não era uma opção.

Agora metade do meu corpo estava submersa em águas gélidas e escuras, mantive a vela acoplada a prancha mesmo que pesando, era minha melhor vela, não aceitaria perde-la e já não tinha controle dos dedos para soltar e enrolar a vela sob a prancha. A braçadas, desajeitadas e dolorosas, fui guiando minha trajetoria para margem, a corrente me levava em direção as pedras, mesmo exausto e com cãibras, eu continuei direcionando a prancha ao que uma área que em meio ao breu aparecia ser sem pedras.

Por sorte, era uma noite de lua quase cheia, que me permitia ver não muito longe meu destino, cada braçada em água gélida tinha sensação de que varias navalhas cortavam meus braços, os dedos eu já não os sentia, foi quando cheguei a margem que percebi, era uma rampa de barco.

Estava no terreno de um desconhecido a noite em um local que só possível chegar de barco. Não tive dúvidas, fui directo batendo palmas e rouco clamando por socorro, até chegar a uma pequena casa de caseiro. Do outro lado do terreno via-se o casarão, com luzes acesas a porta aberta e sem ninguém dentro a casa do caseiro me pareceu aconchegante. Via ao lado da porta uma geladeira com um pequeno rádio antigo em cima, uma mesinha e a porta que dava pra um lavabo pequeno e simples, com muita coragem adentrei a casa e fui direto ao lavabo, ligando o pequeno chuveiro eléctrico que chiou e saiu uma água quente e esfumaceada, deixei a água correr pelo meu corpo alfinetando quente cada um dos terminais nervosos a flor-da-pele, aliviando os braços, mãos, pernas, pés e alma.

Um pouco assustado. com medo de que o caseiro chegasse e sentisse ameaçado com minha presença, fechei o chuveiro e fui para beira do terreno. Puxei meu equipamento para o seco de forma segura e firme. No muro de contenção da grama, sentei e aguardei.
Aguardei…
Aguardei…
Mais de uma, duas horas, não tenho certeza, não tinha um relógio, mas tempo suficiente para meu corpo esfriar e o gélido ár da lagoa dominar mais uma vez o meu corpo e me fazer tremer, tremer de frio novamente. Aguardei…

Noite a dentro de inverno, após horas de escuridão, um pequeno bote com duas pessoas passa ao longe, apenas escuto o barulho. Novamente o bote passa para o outro lado agora com som mais alto. Alguns minutos depois já eufórico, vejo o bote vindo em minha direção.
- Hey você! é o velejador perdido? – perguntou o piloto.
- Sim! – Eu falo, eufórico pelo resgate ter chego.
Em segundos pulo para dentro do bote, puxo meu equipamento para dentro, deixando só parte da vela pra fora, que o outro integrante do bote segura e fala:
- Cara, teu pai ta lá na praia preocupado contigo.

O caminho segue tranquilo, o vento gelado agora era só uma questão de tempo para chegar em casa, tomar um banho quente e me confortar e pensar no que havia acontecido. Que dia, que noite. Aliviado sobrevivi as águas da Lagoa Gelada.